CONHECENDO A CAPITAL DO BRASIL: Me caiu os butiádo bolso (parte I)

10 de abril de 2015

 

Já ouvia dizer que Brasí­lia era a ilha da fantasia, mas não imaginava que fosse tanto. Carríµes importados pelas ruas, pessoas bem vestidas, restaurantes belí­ssimos, lanchas luxuosas no Lago Paranoá e mansíµes í  beira de suas margens. Seria o paraí­so? A cidade modelo? Deveria, mas não é. í‰ a evidência nua e crua da desigualdade brasileira. Enquanto lá se ganha muito (plano-piloto), em lugares não muito longe (cidades- satélites) a miséria desola o povo.

   

Por Maiara Raupp

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Brasí­lia nasceu de um sonho e pelo que se parece vive nele até hoje. Em 1883, Dom Bosco previu o surgimento de uma civilização muito próspera, com um grande lago entre os paralelos 15 º e 20 º Sul, região onde hoje está localizada a capital federal. A voz do além lhe dizia quando vierem escavar as minas ocultas, no meio destas montanhas, surgirá aqui a terra prometida, vertendo leite e mel. Será uma riqueza inconcebí­vel…". E assim foi. Em 1955 foi delimitada uma área de 50 mil quilí´metros quadrados na região central do Brasil e em 1956 iniciou-se a construção da nova capital brasileira, no comando do então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Em 1960, a estrutura básica da cidade estava edificada e Brasí­lia então foi inaugurada. Naquele tempo se conseguia construir uma cidade em quatro anos, enquanto que hoje obras demoram décadas para serem concluí­das, como é o caso da duplicação da BR-101, uma das mais importantes rodovias brasileiras, que atravessa 12 estados, e que já completa 10 anos de obras.

Brasí­lia tornou-se formalmente a terceira capital do Brasil, após  Salvador  e  Rio de Janeiro.  Seu projeto urbaní­stico foi projetado por  Lúcio Costa – vencedor do concurso de 1957 para o plano da Nova Capital – e o arquitetí´nico por Oscar Niemeyer. Teve sua forma inspirada no sinal da cruz, no entanto, o formato da área é popularmente comparado ao de um  avião. Na extremidade noroeste do Eixo Monumental, com 16 km de extensão, estão os Palácios do Governo do Distrito Federal, enquanto no extremo sudeste, perto da costa do Lago Paranoá, estão os Palácios do Governo Federal. O outro eixo leva í s áreas residenciais, que são organizadas em "superquadras", ou seja, são grupos de edifí­cios de apartamentos, juntamente com uma determinada quantidade e tipos de escolas, santuários, by browseonline">lojas e espaços abertos. A cidade também é divida em setores temáticos, como o comercial, hospitalar, hoteleiro, cultural e de diversíµes.

Originalmente, os planejadores da cidade imaginaram extensas áreas públicas ao longo das margens do lago artificial, mas durante o desenvolvimento inicial da capital, clubes privados, by browseonline">hotéis e residências de luxo ocuparam a área em torno da água. Bem separados da cidade estão as  suburbanas  cidades-satélites. A maioria delas não foi planejada e desenvolveram-se naturalmente, a partir do aumento da população.

A capital do Brasil é a única cidade do mundo construí­da no século XX. Em 1987, Brasí­lia foi tombada pela UNESCO como Patrimí´nio Histórico e Cultural da Humanidade, uma honra por ser o único monumento arquitetí´nico com menos de cem anos a receber este tí­tulo. Nas obras de Oscar Niemeyer pode-se observar também preciosidades como o paisagismo de Burle Marx, a arquitetura de Athos Bulcão, os vitrais de Marianne Peretti e as esculturas de Alfredo Ceschiatti e Bruno Giorgi.

 

Vista do Eixo Monumental

 

 

‘Brasí­lia é demais, pena que colocaram brasileiros’

 

Essa foi a primeira frase que ouvi de um morador de Brasí­lia. E ao longo da viagem fui entendendo do que ele estava falando. Brasí­lia tem um projeto fantástico como descrito acima. Muito í  frente de seu tempo. No entanto, é muito triste ver obras de arte, monumentos a céu aberto sem o mí­nimo cuidado e apreço.

Começamos a visitação pelo Museu Nacional. Mais uma obra deslumbrante de Niemeyer, mas de um lado a mesma se encontrava pixada, e de outro haviam usuários de craque. E esse era o nosso Museu NACIONAL. Com várias exposiçíµes internas e poucos visitantes.

A Catedral de Brasí­lia foi nossa próxima parada. Também idealizada por Niemeyer, foi inaugurada oficialmente em 1970. Feita de colunas e vidros, permite a entrada da luz do dia. Um lugar lindo, mas que podia ser valorizado e cuidado pelo povo e pelos governantes. A praça de acesso ao templo, onde encontram-se quatro esculturas em bronze com três metros de altura, representando os evangelistas, parecia um lugar abandonado.Grama alta e pessoas vendendo lembrancinhas pelas calçadas. As esculturas já gastas e marcadas com fezes dos pombos que ficavam por ali. No interior da  igreja as esculturas de três  anjos, suspensos por cabos de aço. Muito lindos, no entanto com muito pó. Aquele barro vermelho da região. Os vitrais e o teto perdiam o encantamento devido ao desleixo. Me caiu os butiá do bolso….

 

 

Os três poderes

 

Gabinete da Presidente

 

O Eixo Monumental é a via pública mais larga do mundo, com 250 metros de largura. Quando que, nos anos 60, ia se imaginar que uma via com seis pistas seria essencial hoje? Neste eixo está localizada a Praça dos Três Poderes, um amplo espaço aberto entre os três edifí­cios monumentais que representam os  três poderes  da  República: o  Palácio do Planalto  (Executivo), o  Supremo Tribunal Federal  (Judiciário) e o  Congresso Nacional  (Legislativo). Um lugar belí­ssimo, com um gramado imenso reservado para que o povo se reunisse e pudesse estar próximo e por dentro dos acontecimentos do paí­s. Hoje há guardas por todos os lados, e o grupo que se aproximar é indagado do porque de estar ali.

Para fazermos a visita tinha que estar devidamente trajado: Calça, camiseta de manga e sapato fechado. Passamos por revista em aparelhos de raio X igual em aeroporto. E um guia nos acompanhava explicando tudo, em português. Uma coisa que me chamou atenção era isso. Os guias, guardas e orientadores dos palácios em sua maioria não sabiam falar outra lí­ngua a não ser português. Os turistas estrangeiros, como franceses e americanos que nos acompanharam na visita, ficavam apenas observando.

O Palácio do Planalto, onde está localizado o gabinete presidencial, foi um dos primeiros edifí­cios construí­dos na capital. Com projeto de Niemeyer, encanta só de olhar. A troca da guarda também é um espetáculo, pena que até os próprios guardas estragam o patrimí´nio. í‰ possí­vel observar que o chão onde é feita a troca da guarda, de mármore branco, está todo quebrado, em virtude dos guardas baterem suas lanças no chão.

O Palácio do Itamaraty, também conhecido como Palácio dos Arcos, é onde está localizado o Ministério das Relaçíµes Exteriores. O Palácio possui o maior  hall  sem colunas do mundo, com área de 2 800 metros quadrados. Incrí­vel! Possui também obras de arte renomadas e tapetes persas imensos, sua maioria doadas. Este superou minhas expectativas (pelo menos do ponto de vista arquitetí´nico e decorativo).

O Congresso Nacional foi a maior decepção. Primeiro demoramos para achar a entrada. Já que a entrada principal, a rampa de acesso, foi fechada após a Copa do Mundo. Segundo o guia, foi por questíµes de segurança e para evitar manifestaçíµes. A outra rampa, que dá acesso direto a Câmara dos Deputados e ao Senado Federal, que foi planejada por Niemeyer para que o povo pudesse ter livre circulação e estar por dentro das decisíµes que ali eram tomadas, está totalmente fechada e com guardas, impedindo a entrada. Fico me perguntando, o que querem esconder? As decisíµes não têm, de uma forma ou outra, que ser anunciadas? Foi entrando no Congresso que percebi.      

A  Câmara dos Deputados  é composta por representantes do povo, eleitos pelo sistema proporcional em cada estado, em cada território e no Distrito Federal. São 513 Deputados Federais, com mandato de quatro anos. O número de Deputados é proporcional í  população do estado ou do Distrito Federal, com o limite mí­nimo de oito e máximo de setenta. Deputados para cada um deles. Acreditem se quiser. Dos 513 deputados que deveriam estar na assembleia, apenas 13 estavam. E ainda é muito para uma quinta-feira, garantiu o guia. Segundo ele, os deputados ficam em Brasí­lia apenas terça e quarta-feira, na quinta geralmente mandam assessores. Quando mandam. Um absurdo! Isso tudo o guia nos fala na maioria naturalidade. Percebe-se a descrença até nos funcionários públicos, que são mais de 30 mil só em Brasí­lia.

O congresso para mim foi a evidência nua e crua da situação em que se encontra o Brasil. Descaso. Bagunça. Nem o próprio lugar em que os governantes trabalham é cuidado. Eram telefones antigos, carpetes remendados, vidros da janelas quebrados e remendados com papelão, funcionários desmotivados, muita gente metida í  importante e pouca gente fazendo pelo nosso paí­s. Eram uns quatro elevadores para parlamentares e uns dois para as demais pessoas. Cada um com um ascensorista, ou seja, um cabide de emprego nos dias de hoje. Os elevadores dos parlamentares vazios, quando não funcionavam com apenas uma pessoa dentro. E os demais lotados. Com filas. Ficava me perguntando. Quem são eles para não se misturarem ao povo? Como é que na hora de pedir um voto eles sabem se misturar? E corredor afora as indignaçíµes vinham í  mente.

 

 

Nada evoluiu depois de JK

 

 

No jornal, a matéria que veio ao encontro do nosso sentimento na visita ao Palácio do Planalto

 

Em todas essas visitas podemos observar o quão lindo e bem pensado que foram os projetos arquitetí´nicos e urbaní­sticos da capital, ainda que na década de 60. Pena o descaso dos governos que sucederam JK. Todas as obras em que visitamos que são mantidas pelo governo, estão se acabando. Só ainda não caí­ram porque foram muito bem feitas. Senão já estavam em ruí­nas. Diferente do memorial JK, mantido pela famí­lia. Este sim muito bem conservado.

Percebe-se que nada evoluiu depois da criação de Brasí­lia. Foi um projeto revolucionário para a época e depois disso parou no tempo. Não há um crescimento. Uma modernização, uma manutenção que seja. Decepcionante. Revoltante. Se aqui a gente acha ruim. í‰ lá que o sangue sobe í  cabeça. í‰ de caí­ os butiá do bolso. Na próxima semana acompanhe a continuação dessa matéria e do olhar de uma torrense na capital do Brasil.

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